Férias na Fazenda Camponesa
As
férias de fim de ano eram esperadas ansiosamente.
Durante
todo o ano, planos eram feitos para a pequena e maravilhosa temporada na
fazenda Camponesa
Era uma farra sem precedentes.
Nos
juntávamos na casa de Selminha, a filha do dono da fazenda.
Reuníamos
todas no quarto e era menina espalhada por todo lado.
Eu,
Luciene, Quita, Bel de D. Carmosa, Edna, Leila, etc.
As
trouxas na casa de cada uma já estavam devidamente arrumadas.
Na
bagagem, nada de celulares, tablets, ou computadores .
Levávamos
revistas de fotonovelas, álbuns de figurinhas, saquinho contendo pedrinhas lisas
do rio pra brincar , “fátima” pra pintar as unhas, biquínis pra se refestelar
nos tanques e riachos da roça, uma máquina fotográfica Kodak e muita inocência
camuflada de maturidade.
Ah
como era bom a chegada na roça, a cancela era aberta por Seu Luiz, vaqueiro da
fazenda e marido de Valmira .a quem chamávamos carinhosamente de “Babia” .
Valmir,
um dos filhos do casal se colocava logo à nossa disposição,
Íamos
pulando uma a uma da carroceria da C10 azul de seu Pedro São Paulo. ( In
Memorian)
Babia
fazia uma festa com a nossa chegada, tratava a todas nós como verdadeiras filhas,
e a Selminha, como uma princesinha.
O
sol brilhava, os dias eram mais lindos naqueles Dezembros de nossas férias.
Nem
bem guardávamos nossa bagagem, já nos espalhávamos uma para cada lado.
Enquanto
uma se “engaruptava” na cancela, a outra já entrava num armazém que servia de
garagem e já saía de lá com uma cela dependurada de um lado, gritando eufórica,
para
Valmir
selar os cavalos e jegues pra gente “curricar” por aí.
Nessa
altura, o cheirinho bom de comida já arengava da cozinha para além da casa, vindo ao nosso encontro
cá no terreiro.
Sabe
uma comida que nunca pude me esquecer?
Foi
a comida de Babia, cozido com maxixe e abóbora, hummmm
Depois
do almoço, passávamos horas, sob as árvores, falando dos nossos paqueras, dos
colegas da escola, dos artistas de circo que tinha ficado na nossa lembrança, e
de mais um monte de coisas simples e inocentes.
No
outro dia, levantávamos com as galinhas; tomávamos café e depois de grande
algazarra em volta da grande mesa de madeira, partíamos para tomar banho nos
açudes.
Ah,
quando Bel de Carmosa arrastou de dentro de sua sacola aquele biquíni rosa,
ousado, cavado da última moda, ufffffa, enlouquecemos.
Ah,
vale ressaltar que Bel de Carmosa era a caçulinha da turma, mas era o que podemos
chamar de “uma mulher “à frente do seu tempo.
Era
linda demais e tudo o que nem sonhávamos conhecer em se tratando de moda, Bel
lançava aqui em Riachão.
E
começou um ritual.
Próximo
ao “tanque”, tinha uma trincheira bem alta.
Subimos
uma a uma para fazermos a mesma foto, com a mesma pôse e o mesmo biquíni, o de Bel.
Não
poderíamos perder a oportunidade de usar “aquele” biquíni.
Naqueles
tempos, dividíamos TUDO, o mesmo biquíni, a mesma fátima, as mesmas revistas e
até os mesmos paqueras. Aceitávamos, de comum acordo beijar o mesmo menino,
valia tudo para uma encorajar a outra.
Numa
das tardes, saímos todas a passear pela fazenda com os animais.
Eram
os cavalos, os jegues e nós.
Em
meio ao trajeto, eu, gaiata como sempre, me distanciei do grupo e, como estava
a cavalo, saí em disparada, me sentindo uma artista de filme.
Só
via o vulto das árvores que corriam a meu lado.
Num
dado momento, avistei uma cancela, como era de se esperar de uma criatura
curiosa e gaiata, abri, passei pro outro lado e ganhei novos rumos.
Tudo
estava indo bem até que me bateu a vontade de voltar e encontrar o grupo.
Cheia
de segurança, voltei a cavalgar com grande valentia. Detalhe, comecei a rodar
em círculos, passava a todo instante em volta de um pequeno tanque todo
engolfado, a cancela sumira como num passe de mágica.
A
tarde estava caindo, tudo foi escurecendo e eu me dei conta de que estava
perdida.
Meu
Deus!!!!!
Bateu
o medo, e com ele o desespero.
Gritei,
gritei, gritei, chamava as meninas pelo nome, chamava os santos dos céus e tudo
que eu ouvia era o coachar dos sapos.
Quando
me vi sem esperança, apeei do cavalo, sentei no chão e segurando a rédea, com a
cabeça entre as pernas, chorei e finalmente lembrei-me de orar.
Para
minha felicidade, escutei ao longe, o tilintar abafado de um chocalho e
vozes...
Me
encontraram..
Tomei
muitos esporros de todos.
Seu
Pedro quase me deu uma surra, e as nossas férias acabaram mais cedo por conta
de minha travessura.
Lindi
13/05/16
